Sentidos
O saber e o conhecimento são sim fundamentais para a constituição de qualquer ser humano. Mas se só bastassem para a vida, nossos corpos seriam absolutamente inúteis, com exceção do cérebro. Mas como se poderia interpretar algo para que se adquira o saber, se não se pode ver ou sentir nada? O saber é a interpretação do mundo, mas sem os sentidos não se sabe como é o mundo.
Um grande filósofo do século XVII o alemão Immanuel Kant achava que ambos nossos sentidos e nosso saber formam a nossa visão do meio. Um quadro inteiramente vermelho será observado por todos como um quadro vermelho, porém haverá aqueles que o acharão belo e os que o acharão feio. Os sentidos nos mostram o mundo como ele é, livre de interpretações. Com essa informação do mundo, fazemos uma interpretação e o que sentimos se transforma no que pensamos. Mais uma vez o conhecimento se transforma em saber. O mundo é diferentemente interpretado por cada um, mas igualmente visto por todos ( perdoem-me os cegos).
Os seres humanos passam por 5 estágios de interpretação do mundo:
- Interpretação instintiva: nesse estágio, o ser humano é uma máquina. Apenas as necessidades básicas são observadas e não se sente nada;
-Interpretação sensorial: o ser humano não raciocina apenas almejando os prazeres imediatos e sendo suscetível à qualquer impulso do meio externo. Qualquer coisa que possa gerar prazer é perseguida incansavelmente e qualquer possível ameaça é razão para violência descontrolada;
-Interpretação racional: é o primeiro estágio no qual realmente há uma interpretação consciente. Aqui os sentidos somados ao saber adquirido resultam nas ações a serem tomadas. Ainda se busca apenas o bem próprio ainda que seja melhor arquitetado e mais duradouro do que no estágio sensorial;
- Interpretação emocional: nesse estágio, o ser humano deixa de almejar apenas o bem próprio para tentar fazer com que o bem maior chegue a todos. Pode ser confundido com o estágio instintivo, já que, por vezes, se ignora a razão mas isso apenas ocorre quando a razão leva apenas ao bem próprio e ao egoísmo. Ainda está atrelado com os sentidos, já uqe parte de uma interpretação das emoções alheias;
-Interpretação real: esse estágio é desconhecido pelos humanos enquanto encarnados em um corpo. Pode parecer que isso envolve um lado sobrenatural, mas não há nada mais natural do que a verdade. Nesse estágio não é necessário interpretar o que os sentidos informam ao cérebro, já que o cérebro por si só sentirá o mundo.O corpo só atrapalha o alcance desse estágio, pois não mais ajuda e alavanca o saber, mas sim o segura para trás confundindo-o. Não é mais uma interpretação, é alem disso é a derradeira e única verdade.
Os sentidos, portanto, são a única forma de se perceber o mundo. Mas não são eles que formam a nossa visão do mundo. É o nosso saber e nossos sentimentos que moldam nosso mundo. Cada pessoa tem seu próprio mundo. É o mesmo para todos mas único para cada um.
O saber
E como já disse sobre conhecimento hoje venho falar do saber. Sim, eles são diferentes.
Conhecimento é o conhecer, o aceitar que algo existe e que é real. O conhecimento não leva à reflexão. Mas o conhecimento é necessário para que haja a reflexão. E a reflexão é necessária para que haja o saber. E isso pode ser muito bem demonstrado nas escolas.
Em qualquer sala de aula há livros e cadernos. Fontes primárias de conhecimento. Mas se o conhecimento bastasse, a figura do professor seria completamente supérflua, já que apenas lendo e pesquisando um pouco qualquer um consegue deter o conhecimento de qualquer assunto. Mas o professor não é supérfluo. O professor detêm o saber e incita os alunos a alcançar o saber. Digo que o professor incita os alunos a alcançar, porque o saber não pode ser ensinado, ele tem que ser experenciado e internalizado. O saber é a visão pessoal do conhecimento. É a interpretação.
Muito bem, agora que as diferenças estão bem estabelecidas, continuemos com as características do saber. É por causa dele que nós, seres humanos, não somos apenas robôs. O saber é desejado e perseguido. É nele que se concentra toda a evolução do homem. E é por causa dele que esse blog se chama Ignorantia Felicitas, que, em latim, significa “A ignorância é uma benção”. Sim, você leu certo: ser criado ignorante é uma benção.
Todos nós fomos criados puros e ignorantes. Quando tenra a nossa idade, somos iguais. São as nossas escolhas e o contexto no qual estamos inseridos que formam o que virá a ser conhecido como nosso caráter (note que não cito apenas o contexto). Mas, quando digo que ignorância é uma benção, não quero que você entenda como se eu defendesse o comodismo e a ignorância ciente. Por ignorância ciente entenda-se a escolha de não saber quando se sabe que não sabe.
A ignorância inicial é primordial para que se alcance o saber, pois, como já disse, o saber é a interpretação do conhecimento. Se nascêssemos detentores de conhecimento, tomaríamos conhecimento como saber. Como nascemos ignorando a tudo, temos a abençoada oportunidade de crescer individual e coletivamente com nosso saber. Vamos conhecendo coisas que até então ignorávamos e vamos as interpretando. Nosso saber é portanto a nossa visão da vida. Nossas escolhas, pensamentos, ações e tudo mais que fazemos dependem do nosso saber. Ninguém que realmente saiba o que é respeitar ao outro fará algo de mau a seu semelhante, mas alguém que ache que tratar o outro como um ser inferior é normal e certo não pensará duas vezes antes de agir.
O saber de um pode, e muitas vezes vai, divergir do saber de outro, pois é uma interpretação e, como tal, pode ser feita de diversas maneiras. E é nesse ponto que o saber deixa de ser algo pessoal. A comunhão de idéias e de saber é necessária para que a sociedade, e não só o indivíduo, cresça com o saber.
Por isso é que eu estou escrevendo, tentando compartilhar ideias e incentivar o saber. Não sou a melhor pessoa do mundo para realizar esse feito, mas tentarei. Afinal de contas, quando se sabe, uma necessidade de compartilhar suas ideias nasce e arde até que seja completada. A minha ainda arde aos montes.